25/01/2010
 Entrevista - Jornal do Comércio

Transcrevemos abaixo entrevista publicada no Jornal do Comércio desta segunda-feira, dia 25.

Fortunati planeja ter FSM todos os anos em Porto Alegre 
 
Escalado para ser o interlocutor do Executivo com o Comitê do Fórum Social Mundial (FSM), o vice-prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), participou das negociações para que a cidade fosse uma das sedes da edição descentralizada em 2010. O trabalho começou em 2008 e é parte de um planejamento mais ousado: garantir que a Capital receba o evento em 2013. O pleito será apresentado no ano que vem, no próximo FSM centralizado, em Dakar (Senegal).


Mas Fortunati - que deve assumir a prefeitura nos próximos meses, com a saída de José Fogaça (PMDB) para concorrer ao Palácio Piratini - sonha ainda mais alto. Ele pretende que Porto Alegre tenha o Fórum todos os anos. Como os organizadores passaram a fazer edições bienais em virtude de recursos insuficientes para atender a um público cada vez maior, o vice-prefeito aponta que a Capital gaúcha poderá garantir uma verba no orçamento todos os anos, caso seja aceita como sede permanente.


Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Fortunati fala ainda dos desafios da administração municipal para os próximos três anos, como as obras para a Copa do Mundo de 2014, e revela que o metrô estará incluído no PAC-2. Também comenta o papel do PDT nestas eleições.


Jornal do Comércio - O senhor também era vice-prefeito em 2000, quando se articulou a realização do FSM em Porto Alegre, no ano seguinte. Que diferenças observa agora?
José Fortunati - Em 2000, quando discutimos com o movimento social a organização do Fórum, havia inúmeras indagações sobre o sucesso do evento, que felizmente acabou acontecendo e com muito fôlego já na primeira edição, em 2001. A última edição do FSM em Porto Alegre foi em 2005 e isso causou uma celeuma, houve acusações de que o Fórum estaria saindo porque o PT havia perdido as eleições, criou-se um mal-estar no Rio Grande do Sul. Mas o Fórum mudou sua dinâmica, passou a ser centralizado de forma bienal, e nos outros anos acontece de forma descentralizada.


JC - E a volta do Fórum para a cidade neste ano?
Fortunati - Em dezembro de 2008, eu era secretário do Planejamento de Porto Alegre e fui procurado pelo Mauri Cruz, da Abong, e pelo Celso Woyciechowski, presidente da CUT-RS, para pensarmos no retorno do FSM. Conversei com o prefeito Fogaça, que topou, e começamos a estabelecer essa relação com os prefeitos da Grande Porto Alegre. Em 2009, foi entregue um ofício assinado por Fogaça, Jairo Jorge (PT), de Canoas, e outros prefeitos, que estiveram no FSM em Belém, apresentando essa reivindicação ao Comitê Internacional. Começamos a nos reunir para formatar a proposta, que foi aprovada nas Bahamas, em maio. Mesmo sendo em um ano de descentralização e uma edição menor, por ser regional, é importante essa retomada no 10º aniversário do FSM.


JC - A marca “Fórum de Porto Alegre” atrai gente de todo o mundo.
Fortunati - Exatamente. O Fórum nasceu aqui e tem uma marca muito forte com Porto Alegre. E essa edição tem algo diferenciado, que é o seminário internacional, atraindo muita gente, inclusive pensadores internacionais.


JC - E o projeto de realizar a edição centralizada do FSM em Porto Alegre?
Fortunati - Lançaremos nesta segunda-feira a ideia de construir um memorial do FSM em Porto Alegre, reunindo fotos, documentos, filmes, enfim, tudo que se dispersou. Vamos firmar um ato com a Ufrgs, CUT-RS, Força Sindical e o Instituto Paulo Freire, que tem procurado centralizar documentos do Fórum. Isso é uma demonstração de que queremos a volta do FSM a Porto Alegre em sua edição centralizada.


JC - Quando seria essa edição centralizada?
Fortunati - Informamos ao Comitê Internacional do FSM que em 2011, em Dakar (Senegal), apresentaremos nossa candidatura. Se tudo correr bem, teríamos a volta do Fórum em 2013.


JC - A cidade ainda apresenta como credencial o Orçamento Participativo, que deu muita visibilidade...
Fortunati - Porto Alegre é referência em participação e o instrumento maior é o Orçamento Participativo, mas os conselhos municipais também são fortes, tendo dois terços dos integrantes indicados pela sociedade. E Fogaça ainda criou o mecanismo de Governança Local Solidária. Então o Fórum tem tudo a ver com Porto Alegre.


JC - Na última edição do FSM em Porto Alegre, que teve um público de 150 mil pessoas, os recursos não foram suficientes, ficaram dívidas, e a própria organização admite que isso pesou para que o grande evento centralizado passasse a ser bienal. A prefeitura está disposta a oferecer um aporte para que o Fórum permaneça em Porto Alegre?
Fortunati - Com certeza. Se a questão básica é orçamentária - no que depender do prefeito José Fogaça e de mim - poderíamos consolidar o FSM de forma permanente em Porto Alegre e anual. Temos a convicção de que os recursos que são investidos no Fórum pela prefeitura têm um retorno muito maior para a cidade, especialmente na edição centralizada.
 

JC - Como?
Fortunati - Toda a rede hoteleira, bares, restaurantes, taxistas e comércio são beneficiados. E quantas cidades fazem campanhas milionárias para divulgar sua imagem no exterior e atrair eventos? Com o FSM, todo mundo está falando de Porto Alegre, basta acessarmos os principais sites da imprensa internacional para ver. Então, a imagem de Porto Alegre é “graciosamente” divulgada de forma positiva pelo mundo todo. As pessoas às vezes não se dão conta do que isso significa. Com o FSM permanentemente estamos colocando Porto Alegre para o mundo.
 

JC - Ou seja, se o Fórum não é anual por causa de recursos, Porto Alegre resolveria o problema.
Fortunati - Se esta for uma demanda do Comitê do FSM, existe receptividade do Executivo e, tenho certeza, do Conselho do Orçamento Participativo para designarmos uma verba específica para essa atividade.
 

JC - Qual a importância de eventos para a economia da cidade hoje?
Fortunati - Somos a terceira cidade do País em eventos internacionais. E o FSM tem algo que nenhum outro evento consegue, que é essa multiplicidade de expressão mundial. Só a Copa do Mundo vai nos dar a mesma visibilidade. Então, nossa intenção é ter no início de 2013 o FSM, em julho de 2013 a Copa das Confederações, e no mesmo ano o Campeonato Mundial Master de Atletismo. Tudo isso será preparatório para a Copa do Mundo de 2014. Porto Alegre ganharia muito tornando-se conhecida: atrairia investimentos, gerando emprego, renda e riqueza.


JC - O prefeito José Fogaça deve ser candidato a governador e com isso o senhor passaria a ser prefeito. As definições serão em março?
Fortunati - Certamente.
 

JC - Quem o PDT vai apoiar nas eleições no Estado?
Fortunati - O PDT ainda não tem posição oficial. A tese da candidatura própria perdeu força. Então, hoje são duas possibilidades: aliança com o Fogaça - não é simplesmente com o PMDB, mas com o PMDB e Fogaça -, ou com o PT. Percebo que cresceu muito a possibilidade de coligação com o PMDB e Fogaça. Pessoas que anteriormente defendiam uma aliança com o PT - cito dois exemplos, Lícia Peres e o novo presidente da Assembleia Legislativa, deputado Giovani Cherini - hoje são defensores da aliança PDT-PMDB-Fogaça. É a tese majoritária no partido.


JC - E a relação com o palanque nacional não pode atrapalhar?
Fortunati - O PDT já está perfilado com a candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT) à presidência. E não subordinamos as eleições nos estados à questão nacional. O PDT tem a compreensão de que a principal eleição no País é para a presidência da República e o Congresso Nacional. As eleições nos estados são, nesse ponto de vista, inferiores. E, para termos credibilidade com o eleitor, entendemos que nos estados o palanque a ser defendido tem que ser o palanque nacional. Por isso a inflexão que o PDT faz para que no Rio Grande do Sul o palanque do Fogaça seja o palanque de Dilma.


JC - O senhor apoiará Dilma mesmo que Fogaça permaneça neutro?
Fortunati - Minha posição (de apoiar Dilma) independe de qualquer outra relação com o prefeito Fogaça, com o PMDB ou qualquer outro partido. Considero a decisão do PDT correta e a ratifico.


JC - Há dúvidas se o presidente Lula conseguirá transferir votos para Dilma.
Fortunati - Lula será o principal cabo eleitoral de Dilma. Dizem: “Lula não teve sucesso eleitoral em 2008 e não elegeu seus candidatos”. Mas tenho certeza de que o Lula não fez campanha em 2008. Não “entrou em campo”, ao contrário do que pretende fazer agora. Certamente, Lula vai ter um peso muito forte nas eleições de 2010.

JC - Outro ponto da pauta de negociações para o Piratini é a eleição para a prefeitura da Capital em 2012.
Fortunati - Aprendi que subordinarmos o presente a ações do futuro é um equívoco. A política é muito dinâmica. Então, considero um grande equívoco subordinar qualquer ação em 2010 pensando em 2012.

JC - Mas houve propostas de integrantes do PT para atrair o PDT e há o documento de caciques do PDT e do PMDB pensando em 2012.
Fortunati - Logo que algumas lideranças do PT anunciaram a possível proposta eu disse: “conheço o PT e sei que isso não tem consenso”. Dito e feito, logo em seguida o deputado Raul Pont, presidente estadual, e a deputada federal Maria do Rosária, candidata à prefeitura de Porto Alegre em 2008, refutaram esse possível acordo. E o documento (PDT-PMDB) era desconhecido no partido. Foi firmado por algumas lideranças, mas em momento algum ele aparece na vida partidária e no processo de consulta ao militante que fizemos em maio de 2008.


JC - Alguns líderes partidários dizem que esse documento PDT-PMDB preparava a candidatura do deputado Vieira da Cunha (PDT) à prefeitura em 2012. Mas agora tem um fato novo, que é a candidatura de Fogaça ao Piratini em 2010.
Fortunati - Alguns tentam torpedear a candidatura de Fogaça para que eu não assuma a prefeitura agora, porque há dois caminhos se eu assumi-la: posso ter êxito na administração e ser o candidato natural ou não ter êxito e não ser candidato à reeleição. Então, mais do que qualquer documento, se eu assumir a prefeitura, o que vai apontar as possíveis alianças para 2012 é o trabalho a ser desenvolvido na cidade de Porto Alegre.


JC - Por que o senhor diz “se eu assumir”?
Fortunati - O fato só será concreto quando o prefeito Fogaça renunciar e eu tomar posse. Até lá, como diz o ditado, “o futuro a Deus pertence”. Todo mundo apostava, eu inclusive, há dez anos (quando era vice-prefeito) que eu seria candidato à prefeitura de Porto Alegre (pelo PT). E não fui candidato.
 

JC - O seu sonho é ser prefeito de Porto Alegre?
Fortunati - Meu sonho, que se concretiza ou não no final de março, é assumir a prefeitura. E o meu sonho seguinte é continuar com tudo o que estamos planejando para Porto Alegre. Isso vem sendo construído pelo prefeito Fogaça a partir de vários projetos e a Copa do Mundo acaba acelerando. Então, poderemos ter nos próximos anos uma transformação muito grande na cidade. A grande preocupação é que possamos, até o final de 2012, levar a cabo tudo isso que vem sendo projetado.

JC - Quais são as prioridades da administração?
Fortunati - Tudo que tem sido planejado pelo prefeito Fogaça só tem que ser implementado. Algumas coisas já estão, como o Pisa (Programa Integrado Socioambiental), estamos bem avançados com os Portais da Cidade, o deslocamento das vilas Dique e Nazaré já se iniciou. Precisamos continuar, até porque a Fifa exige prazos que a cidade precisa cumprir. Minha tarefa, assumindo ou não a prefeitura, é auxiliar para que as obras aconteçam.

JC - O dinheiro da Copa é menor do que o esperado?
Fortunati - Sim. O prefeito Fogaça cobrou da ministra Dilma, eu cobrei da Erenice Guerra, que é a secretária-executiva que tem coordenado esse processo, e ela reconheceu. Estávamos num patamar até um pouco mais elevado do que as outras cidades, por causa do metrô. Como havíamos incluído como prioridade número 1 o metrô, R$ 2,5 bilhões, o somatório da prefeitura de Porto Alegre era superior ao das demais cidades. Como o nosso metrô não se tornou exequível, ficamos com um volume de recursos inferior. Vamos retomar a negociação para aumentar o nível de financiamento do governo federal para a mobilidade urbana. Muito provavelmente mais dois viadutos na Terceira Perimetral, e uma elevada para terminar com o “X da Rodoviária”.


JC - O metrô de Porto Alegre está descartado?
Fortunati - O fato de termos incluído o metrô como prioridade para a Copa foi importante, porque agora o governo federal assumiu que o metrô é prioridade de Porto Alegre. Conversei com o ministro (do Planejamento) Paulo Bernardo, que garantiu a inclusão do metrô no PAC-2. Mais do que isso, o governo federal se convenceu de que a primeira linha a ser executada não é em direção à zona Sul, mas em direção à zona Norte, pois tem maior densidade e liga Porto Alegre à Região Metropolitana.


JC - E o aeromóvel?
Fortunati - Vai sair e será construído entre a estação do Trensurb até o aeroporto. São 850 metros e um investimento de R$ 30 milhões.


JC - Lideranças comunitárias reclamam que se fala muito em obras da Copa e as obras para a periferia da cidade estão abandonadas.
Fortunati - Não estão, porque o Orçamento Participativo está sendo cumprido. As obras da Copa têm visibilidade maior, mas as que dizem respeito à cidade continuam sendo construídas. A Copa só agiliza investimentos que a cidade precisa, como a avenida Tronco, que passa por dez vilas populares, na grande Cruzeiro do Sul.



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